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04 outubro, 2018

Em meus passos, o que faria Jesus?

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Tomando por inspiração um best-seller da literatura evangélica,  ‘Em Seus passos - o que Jesus faria?’, tenho feito o meu esforço para tentar compreender o que está se passando conosco, como diz o irmão Daciolo, Nação brasileira. Um país de maioria esmagadora cristã, que escolhe o caminho da violência para resolução de conflitos, em absoluto e claro desacordo ao que apregoa o Evangelho do Cristo. Se isso é terrível, torna-se execrável fazê-lo em nome de Deus e seus valores.

Acho que nos desviamos do Caminho.

Obviamente, o desvio da rota do Cristo, que hoje assume contornos grandiosos, em todas as expressões da nossa sociedade e culmina na virulência e medo como norte à tomada de decisões, não começou em 2016.

No final dos anos 80 começou ganhar notoriedade uma nova configuração de igreja evangélica no Brasil. Novos ritmos, novo tipo de acolhimento, novas formas de expressão, mais liberdade comportamental, ritos menos pesados na liturgia.

A igreja evangélica ganhou as ruas com mais força e visibilidade, e os antes esquisitos crentes ganharam ares de modernidade, sofrendo menos hostilidade social.

Agora havia famosos de toda ordem evangélicos, empresários, jogadores de futebol, atrizes, atores...Rádios e Televisões dia e noite pregando o resgate do mais vil pegador, sua transformação e prosperidade.

Os pastores apreciaram a fama. Multidões de seguidores em reuniões gigantescas começaram a dar ao ego deles requintes de divindade, e a mensagem começou a ser adaptada para dar mais força ao milagre financeiro, a desejada prosperidade da propriedade, ao mesmo tempo em que o milagre da transformação do caráter – árdua tarefa do discipulado de uma vida intensamente mergulhada ao amor a outra vida, foi perdendo ênfase e status de necessidade elementar da caminhada com o Cristo.

Por concessões de rádios e tv’s, sob a sombra da propagação do evangelho, as mais variadas concessões foram sendo dadas, na prática da constituição de igrejas e suas células de expansão.

Milagres fabricados. Emoções manipuladas. Dinheiro. Poder.

Cada vez mais campanhas para aquisição de bens materiais foram sendo desenvolvidas. Cada vez menos campanhas para transformação da mentalidade, na perspectiva de procurar desenvolver o caráter do Cristo.

Desde pequena sempre ouvi sobre tomar cuidado para que a cultura do mundo, os conceitos do mundo, os valores do mundo, os costumes do mundo não entrassem no meu coração.

A igreja, todas, sempre pregaram contra os valores do mundo.

Mas, eis que a cultura do mundo, os conceitos do mundo, os valores do mundo, os costumes do mundo encontraram na igreja evangélica brasileira, tanto quanto em outras partes do mundo – que inclusive nos inspiram – o acalento perfeito.

Ira incontida, rancor, violências, preconceitos, materialismo, egoísmo, disputas e coisas semelhantes a estas, é isso a cultura do mundo que o Evangelho combate e contra a qual o Cristo veio, apregoando uma nova cultura cuja base essencial é o amor, de onde emana respeito, bondade, tolerância.

A escritura sagrada nos foi dada para desenvolvermos esperança de que é possível, que a nossa imagem deformada em decorrência do mal que em nós se instaurou, pode ser redimida. Ela, a escritura, registra a queda, a degeneração do homem em suas mais pérfidas escolhas e desgraças, apontando para um novo sistema de vida, inspirado na pessoa do Cristo - expresso no que ele sentia, falava e praticava em relação às crianças, às mulheres, às pessoas desprezadas da sociedade, aos doentes de toda ordem, à natureza, às instituições religiosas e políticas e ao ordem social opressora.

Ele, o Cristo, foi um contestador da cultura do mundo, dos conceitos do mundo, dos valores do mundo, dos costumes do mundo, denunciando-os e praticando uma nova cultura, novos valores, novos costumes.

Em meus passos, o que faria Jesus?

Acho que esse registro de uma de suas parábolas ilustra bem:

“Vinde, abençoados de meu Pai! Recebei como herança o Reino, o qual voz está preparado desde a fundação do mundo. Pois, tive fome e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; fui estrangeiro, e vós me acolhestes. Quando necessitei de roupas, vós me vestistes; estive enfermo, e vós me cuidastes; estive preso, e fostes visitar-me.

Mas, Senhor! Quando foi que te encontramos com fome e te demos de comer? Ou com sede e saciamos? E quando te recebemos como estrangeiro e te hospedamos? Ou necessitado de roupas e te vestimos? Ou ainda, quando estiveste doente ou encarcerado e fomos ver-te?

Com toda a certeza vos asseguro que, sempre que o fizeste para algum destes meus irmãos, mesmo que ao menor deles, a mim o fizestes.”

Nos meus passos, o Evangelho me diz, que o Cristo não escolheria os destinos políticos do país a partir do medo que rega o ódio (ou ódio que rega o medo).

Nos meus passos, o Evangelho me diz, que eu toda a minha liberdade de ação social e política tem limite, e sua macro orientação está no Sermão do Monte e em algumas parábolas, está na pessoa do Cristo.

E vou seguindo, minha caminhada, em esforço grande para me levantar aos tropeços diários, perguntando sempre, o que Jesus faria?

Que Deus tenha misericórdia de nós.

01 setembro, 2018

Só quero mais uma vez esperançar

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Gosto muito do meu nome. Não tenho a menor ideia sobre como meus pais o definiram. Pelo sei, nem eles sabem.

Nessas pesquisas cinfrinhas da web, sobre a origem do nome, ele aparece associado a Adélia, significando, segundo dizem, "PESSOA DE NOBRE ESTIRPE". Não é pouca coisa!

Mas, se fôssemos nós os responsáveis por nós dar nome, talvez me chamasse ESPERANÇA que para mim é um registro sobrenatural de resiliência e é esse o melhor retrato que tenho de mim mesma.

Em todos os traumas e privilégios que a existência me tem dado viver louvo a esperança de acreditar quase sempre, de levantar uma vez e outra mais e mais outra, de verdejar e amarelar e a folha cair e recomeçar e esperançar.

A esperança é um mistério poderoso.

Nesses tempos de trevas,  rancores,  ódios, incompreensões, desespero, ansiedade, violências, desprezo ao diálogo, medos, sinismo  eu faço uma oração ao Eterno que creio o dom da vida: não me deixe perder o viço da esperança, sua força, seu brilho, sua serenidade e todas as virtudes que inspira e faz nascer em nós.

31 agosto, 2018

Ai de vós, líderes religiosos. Impostores.

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Quando eu exercia, como a gente diz na igreja, o ministério pastoral, das coisas que mais me davam frio na espinha e arrepio, era pregar - a hora dos sermões. Minha vontade às vezes era de correr. Não por medo de falar em público. Não. Tenho muito problema para assumir as coisas que faço bem, mas em uma já estou certa de que sou boa: se eu tiver mínimo domínio sobre determinado assunto, eu falo bem; outras vezes enrolo bem; outras vezes me viro bem. Ou, como me disse a Professora Inês, em 1992, quando eu fiz um discurso numa festa da escola, eu tenho o dom da oratória. Eu era apenas uma adolescente. Ou, eu nasci assim!

Mas, na igreja me apavorava cada culto em que a responsabilidade da palavra era minha. E foram muitas vezes ao longo de 13 anos.

O motivo? Eu sempre soube do poder do que eu falava.

Tive um pastor, Douglas (que ainda mora no meu coração rs) que insistia nas suas pregações, que investigássemos o que ele falava à luz do Evangelho e da pessoa do Cristo. Aprendi que isso era fundamental e também tentava provocar as pessoas a fazerem o mesmo em relação ao que eu falava, embora soubesse que quase ninguém faria, e o que eu falava era meio que quase lei. E, para ser bem honesta, houve muitas vezes que assumi o autoritarismo da posição para induzir as pessoas às decisões que eu queria. Simples assim.

Então, cada vez que vejo Pastores e Líderes agindo irresponsavelmente com o Evangelho me dá pavor. Confesso, às vezes dá vontade de sumir, outras de bater neles.

Nós que nos dizemos cristãos, queiramos ou não, temos um limite à nossa liberdade imaginativa de mundo. Qual é ele? O Cristo.

O Cristo nos deixou um mapa, um guia apontando como é o mundo que os seus princípios e valores nos inspiram construir, e NÃO TEM NADA A VER com o que estamos vendo muitos pastores descoladões e outros mergulhados no tradicionalismo estão espalhando e fazendo crer a muitos.

Meus amados irmãos, voltemos ao Evangelho, puro e simples do exercício de enxergarmos que:
  • TODOS pecaram e destituíram ficaram;
  • Não há um justo sequer;
  • É a Graça que nos alcança e o que de bom em nós se faz, não vem de nós, mas dEle;
  • A lógica da nossa cidadania tem por base dar a outra face, perdoar 70x7, andar com os mais desqualificados da sociedade e amar a escória.
Se o Evangelho é O PODER DE DEUS PARA SALVAÇÃO, como podemos ter uma postura tão violenta e tão diametralmente oposta à do Cristo, dizendo-nos cristãos?

O espírito deste século nos tem cegado de tal forma que nos tornamos semelhantes aos religiosos do templo, na velha Jerusalém e seus arredores. Cuidamos do exterior do copo, hipócritas.

Como disse o Cristo, no Evangelho, "ai de vós, líderes religiosos. Impostores. Vocês são como as lápides das sepulturas: bem feitas, grama aparada e flores à volta, mas sete palmos abaixo o que existe são ossos podres e carne comida por vermes. Para quem olha, vocês parecem santos, mas, por baixo desse verniz, são uma fraude!"

Tomem cuidado, líderes religiosos, um dia a roupa de falso cristo que vocês usam se desgastará e vocês ficarão em praça pública, nus.

26 agosto, 2018

Escuridão

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A sala escura e silenciosa as vezes faz bem, outras vezes nem tanto. Quase sempre, na verdade, ela traz uma mistura disso tudo para ser real, no imaginado.

Medo, dúvidas, lágrimas e muitas saudades do que não foi e do que poderia ser, orbitam a mente.

Mergulhamos na insistente mania de querer desvendar as coisas sobre as quais não temos controle, as experiências não vivenciadas, os anos que passaram ao largo da nossa existência.

E dói.

A distância que criamos de nós mesmos, tão extensa e pedregosa que nos custa andar por ela e adiamos  a caminhada ao encontro de nossa identidade. Esquecemos quem de fato somos, o que realmente faz sentido para nós, o que nos faz acordar todo dia e o que nos dá leveza para existir mais uma vez e outra vez, nesse ciclo nominado vida.

Afinal, o que somos? Ou o que esse rodopiar de ciclos ou rotinas incontroláveis fez e faz de nós?

Impossível dizer se nos perdemos ainda antes de nos percebermos em ciclos.

E seria essa percepção de visita não programada, uma, duas, vez ou outra a luz que deseja se acender na sala?

E o que restará, na sala, se plugarmos a lâmpada e a deixar quebrar a sombra, nossa proteção?

Haverá ordem? Que ordem?
Coisas, objetos espalhados, quebrados?
A poeira do passado estará sobre tudo?
Registros do cotidiano nebuloso estarão rasgados dispostos por todos os lados?
Que sujeiras virão à tona sob a luz?

Medo, dúvidas, lágrimas e muitas saudades do que não foi e do que poderia ser.

A escuridão protege fracos e fortes e os coloca em pé de igualdade. Melhor tê-la, então, escondendo as bagunças previsíveis, apagando as falsas expectativas de um bem não alcançado.

A noite já vai alta.
Durmamos mais numa vez sob o manto da escuridão que esconde as lágrimas tão bem quanto aos risos falsos.

24 agosto, 2018

Pelo direito de sonhar

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Era quarta-feira, como outras tantas na padaria perto de casa.

Um pigado, por favor. Com mais café e leite, bem quente. Mais quatro biscoitos de queijo. Meu pedido de todo dia.

Enquanto espero...uma mensagem salta no Messenger.

"Ádila, sabe de alguma oportunidade de emprego?"

Não é a primeira vez a mesma questão me bate à porta.

Minha caneta cor de rosa também salta para escorrer sua tinta no primeiro verso de papel que encontro na mochila.

Impossível não me ver voltando ao final da década 1990, quando eu tinha a mesma idade do meu amigo da conversa. Muito embora, é preciso afirmar, mesmo em condições severas, as dele são bem mais arrojadas.

1997. Eu morava em Ceilândia. QNM 03. Quem conhece sabe que é barra pesada. Hoje ainda menos que naquela década. Mais de uma vez, ao retornar da escola (CEd 07) me deparava com a rua (conjunto G) fechada pela PATAMO. Ninguém entrava ou saía até que mais uma operação atrás de merla,  a droga da quebrada, fosse finalizada. Uma vez teve um assassinato na porta da minha casa. E não foram poucas as vezes que fui "escoltada" de casa até a escola por um jovem viciado que ficava perambulando na quadra. Ora doidão. Ora fazendo pequenas entregas aos carrões que por lá apareceriam. Ele me pedia uma folha do caderno todo dia e todo dia ia falando a mesma história de que era importante estudar.

Mas aquela minha realidade, que foi breve, não se chega aos pés do que o meu amiguinho vive, desde sempre.

A vida do jovem da periferia é muito dramática. Heroicamente ele consegue permanecer na escola para se desafiar a estudar, quando a sua cabeça  está noutro mundo, da comida que falta em casa, do aluguel, da mãe trabalhando pesado e você, que deveria ajudar em casa está ali, para quê mesmo? Sim, esse grilo fica zunindo na cabeça.

Aí você vai procurar um curso, porque não pode se dar ao luxo de terminar o ensino médio e não se comprometer financeiramente com a família. Você precisa se preparar para entrar no mercado de trabalho. Como odeio essa expressão! E o que é oferecido?

Auxiliar administrativo. Recepcionista. Atendente.

Na boa? Que diabos de oportunidade é essa? Por que não estamos ensinando tecnologia e comunicação para os nossos jovens pobres?

A primeira resposta: porque não temos compromisso com a ruptura dos sistemas de empobrecimento cíclicos que regem nosso país.

Depois. Porque é o tipo de "curso" que não dá para ir à uma aulinha mal engendrada de duas horas,  duas vezes por semana e pronto. Você tem que imergir, treinar, fuçar, desbravar mundos sozinho e fazer conexões,  para além daquelas aulinhas . E aí, você não foi ensinado a pensar, sua curiosidade foi podada a vida toda, você não desenvolveu hábito da leitura e, pra melhorar ainda mais, você não tem instrumentos básicos: um computador e internet. Como fazer?

O caminho mais fácil é sempre a melhor escolha, não é verdade? Cada um no seu quadrado e a repetição do discurso vazio e desumano de que, "quem quer pode". E isso define nosso mundo mesquinho.

Já desisti de cursos porque precisava ajudar em casa com dinheiro, portanto, trabalhar e não estudar, era prioridade. Desisti de outros por falta de dinheiro para o ônibus. Desisti de outros porque só dariam retorno muitos anos depois e eu precisava de algo que me inserisse já, imediatamente, no mercado de trabalho e assim, poderia ajudar a amenizar os aperreios de casa.

E assim, se perdem bons cérebros. E assim, escravizamos jovens. E assim, perpetuamos ciclos segregadores.

Ah, esses jovens precisam pensar no futuro.

Confesso. Minha real vontade é escrever um palavrão que deixasse muita gente roxa.

O futuro desses jovens é o dia seguinte, quando muito. Muito diferente da grande maioria dos bem nutridos que repetem esse discurso e outros igualmente rasos.

De tantas dores que carrego quanto aos adolescentes e jovens em situação como a do meu amigo,  é que lhes foi tirado o direito de sonhar.

Das coisas mais elementares e poderosas que podemos carregar conosco é o sonho e a esperança. E mesmo isso não lhes é dado o direito de cultivar.

Minha tinta cor de rosa se desmancha nas lágrimas inevitáveis pelo que temos feito às nossas crianças e jovens, roubando-lhes o direito de sonhar e encravando-lhes a obrigação de "dar certo" e superar todo monturo de desumanidade com que lhes sufocamos.