Pular para o conteúdo principal

Si.lêncio


Houve um tempo de silêncio significativo dos motores, dos passos na rua, das vozes que insistem em gritar aleatoriamente sem compromisso de algo dizer.

E aqui dentro éramos convidados a um olhar interior com menos distração, ao exercício de perceber ao redor, à busca de alguns detalhes ou à simples entrega a pequenos momentos de nada.

Enquanto se assevera a nossa crise e aumentam as pilhas dos nossos mortos e o silêncio nos deveria comunicar transformações na lógica de existirmos social e economicamente e nas ações relacionais o que é há rompimento. Não da lógica a que nos acostumamos. Mas do silêncio que deveria estar sendo uma chave mental neste momento.

Lá fora os motores voltaram a uivar assustadoramente. E, como se dia normal fosse, os passos acelerados e as vozes nas ruas dizem que a reflexão deu rapidamente lugar à potência do tangedouro do político chefe do nosso país, que insiste na política da morte como cultura a sacramentar no Brasil.

O silêncio interior começa a dar, cada vez mais, lugar ao medo do que virá daqui a 15 dias, especialmente imaginando os números dessa semana num retrospecto de duas semanas, quando o chefe da nação impulsionava a população ao suicídio ao invés de assumir suas responsabilidades de orientar, de fortalecer as ações dos estados e municípios, de ter plano e ação estratégica a atender com inteligência e celeridade às milhões de pessoas em situação continuada de vulnerabilidade e as que em questão de dias foram postas nessa condição.

E os barulhos, todos que agora se recompõem rapidamente nas ruas, com potência indomável assaltam a lucidez e deixam agitados e reféns os corações, numa inclinação mais rápida à autoridade falsa dos políticos que resistem se colocar a serviço do bem coletivo.

E o povo sofre.
E o povo morre.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Democracia e representatividade: por que a anistia aos partidos políticos é um retrocesso

Tramita a passos largos na Câmara dos Deputados, e só não foi provado hoje (2/maio) porque teve pedido de vistas, a PEC que prevê anistia aos partidos políticos por propaganda abusiva e irregularidades na distribuição do fundo eleitoral para mulheres e negros. E na ânsia pelo perdão do não cumprimento da lei, abraçam-se direita e esquerda, conservadores e progressistas. No Brasil, ainda que mulheres sejam mais que 52% da população, a sub-representação feminina na política institucional é a regra. São apenas 77 deputadas entre os 513 parlamentares (cerca de 15%). E no Senado, as mulheres ocupam apenas 13 das 81 cadeiras, correspondendo a 16% de representação. Levantamentos realizados pela Gênero e Número dão conta que apenas 12,6% das cadeiras nos executivos estaduais são ocupadas por mulheres. E nas assembleias legislativas e distrital esse percentual é de 16,4%. Quando avançamos para o recorte de raça, embora tenhamos percentual de eleitos um pouco mais elevado no nível federal, a ime...

Os olhos são as janelas do corpo (ou da alma)

Diz a sabedoria: "Os olhos são as janelas do corpo. Se vocês abrirem bem os olhos, com admiração e fé, seu corpo se encherá de luz. Se viverem com olhos cheios de cobiça e desconfiança, seu corpo será um celeiro cheio de grãos mofados. Se fecharem as cortinas dessas janelas, sua vida será uma escuridão." Eu adaptaria para os olhos são as janelas da alma. Por mais óbvio seja, parece que recorrentemente é necessário dizer o quanto nós julgamos as pessoas por aquilo que somos capazes de fazer. E quase sempre isso dista, anos luz, do que elas realmente estão fazendo ou considerando fazer. Então, em um processo de rupturas, por exemplo, se nós somos do tipo agressivo e violento que atua para enxotar as pessoas dos espaços e fazer os mais ardilosos arranjos de modo nos garantirmos em estruturas de micro-poder, é assim que lemos as outras pessoas e começamos a desenvolver pensamentos e medidas conspiratórias em lugares que somente nós encontramos os males imaginados. E e...

Narrativas. Vida. Caos. Desesperança.

  Quando eu era pastora repetia com muita frequência, aos membros da igreja, sobre a necessidade de submeterem o que ouviam de mim ao crivo do Evangelho, aprendi isso com o bispo Douglas e com o Paulo, o apóstolo rabugento (e por vezes preconceituoso), mas também zeloso com a missão cristã assumida. Outra coisa que eu repetia era que as pessoas só conseguiriam se desenvolver se exercitassem a capacidade de pensar. Nunca acreditei num Deus que aprecia obediência cega, seres incapazes de fazer perguntas. E cada vez mais falo a Deus que se ele não conseguir se relacionar com as minhas dúvidas, meus questionamentos, as tensões do meus dilemas e mesmo cada um dos incontáveis momentos em que duvido até dele, então ele não é Deus. Será apenas um pequeno fantasma das minhas invencionices mentais, portanto, irreal. E por que isso aqui da gaveta das minhas convicções e incertezas? Assim? A nossa História é basicamente um amontoado de narrativas. Ora elas nos embalam na noite escura e fria. O...