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Deixar as malhadas

Recentemente uma amiga me admoestou com a seguinte frase: "mana, já está de você deixar as malhadas". Claro que eu ri, e muito.

A referência é bíblica, à história de Jacó e seus tempos de serviço ao sogro  Labão, enriquecendo-o e não tendo adequado reconhecimento por seu trabalho. É  principalmente, uma chamada à aceitação pública de desafios que muitas vezes a gente já enfrenta no privado, "às escondidas", nos bastidores.

Nunca enriqueci ninguém e, graças a Deus,  meu trabalho quase sempre teve reconhecimento de valor. Não em todos os sentidos, obviamente.

Há um fato importante porém, trazido por essas referências e de modo muito forte.

Mostrar o que sou capaz de fazer, ou melhor, assumir minhas capacidades, nunca foi algo que me atraísse. Muito ao contrário. Quase sempre só me salta aos olhos a ácida crítica que eu mesma me imponho. Sei fazer muitas coisas e quando assumo desafios normalmente tenho excelente desempenho. Mas tenho enorme e sincera dificuldade em dizer com todas as letras "sou boa", por mais autoridade que eu tenha naquilo.

Há alguns anos, movida por um desejo e necessidade de provar a mim mesma que algumas ideias tinham potencial efetivo à realidade, me impus gravar vídeos na internet e dar palestras e treinamentos sobre temas do meu exercício profissional.

Foi bom.

Aquilo foi como um divisor mental, embora não uma completa ruptura com alguns conceitos que tenho e com os quais, por vezes, confesso, não sei lidar adequadamente. Talvez razão seja porque acredito que as pessoas veem em mim infinitamente mais do que me considero capaz.

Talvez elas tenham razão. Talvez.

Acontece que, para além disso, carrego repulsa ao endeusamento às capacidades individuais cultivadas por nossa sociedade. Isso se dá porque muitas vezes, e por longo tempo, eu desdenhei dos meus valores e me prestei a discipular pessoas na lógica do "eu posso, eu vou conseguir".

Problema é que existir não é nem oito nem oitenta. Mas exercício pelo equilíbrio. E isso é muito difícil.

Deixar as malhadas me provoca pensar se não há hipocrisia ou covardia na minha postura.

Se hipocrisia, é preciso tratar com o que não é real. A hipocrisia adoece a alma e a faz prisioneira da mentira, a apequena e nos coloca numa roda viciada de culto à própria personalidade em disfarce mal acabado de humildade e isso é muito ruim.

Se covardia, também é preciso tratar. O medo nos descaracteriza, apaga as razões do nosso existir coletivo e, desfigurados, podemos nos fazer qualquer coisa, até mesmo despudorados  que exploram o outro e de tudo se fazem capazes sob o manto do "nem me vi fazendo isso", ou "não foi essa a minha intenção".

Deixar as malhadas é assumir riscos , mas também ser responsável pelo próprio destino. É, também, amor próprio. É exercício de consciência livre. É desafiar-se a ser melhor para prover o melhor para o coletivo. É assumir a autoridade da verdade e os seus riscos.

Ainda não esgotei as reflexões sobre o que as malhadas escondem ou nos estimulam esconder. Porém, penso que exercitar novos passos seja uma necessidade. E maturar outros significados possíveis à expressão uma demanda a quem deseja se melhorar em diálogo consigo mesmo e com o próximo.

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