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Um ato, mil fatos

Rodoviária do Plano Piloto.

Sempre lembro que em alguns momentos do dia isso aqui deve ser um dos tantos rascunhos do inferno que estão espalhados por aí.

Tudo acontece na plataforma inferior, na porta do banheiro masculino, em frente ao box E-01. Estou esperando o ônibus para a Asa Norte.

Desculpem, vou usar alguns palavrões:

Polícia: encosta porra! 
Rapaz: pronto, senhor! Pronto, senhor!


O policial começa a bater na cabeça do rapaz com o cacetete.

Polícia: o que tem nessa garrafa?
Rapaz: é água, senhor, é água.


Leva mais duas batidas na cabeça e uma no meio das pernas.

Polícia: me da aqui essa porra, seu filho da puta e abaixa essa cabeça. Abaixa a cabeça, porra!

O policial toma a garrafa e cheira o líquido. Provavelmente identifica que é mesmo água e devolve pro rapaz. Bate mais duas vezes no rapaz, na cabeça e no pescoço, e dispara o último ato de civilidade antes de sair de peito inflado olhando desafiadoramente ao redor com a certeza de que ninguém abriria a boca para questioná-lo:

"Some daqui, viado. Rápido."

Que Estado é esse? 
Que sociedade é essa?


Nenhuma das pessoas, e eram muitas, que presenciaram a cena, sequer se moveu, inclusive eu.

Esses dias alguém compartilhou um vídeo de uma mulher, acusada de ter praticado um crime, sendo linchada. Uns cinco homens a enxotavam, esmurravam, arrastavam pelo cabelo e uma turba de mais de vinte pessoas filmava.

Que estado de alma é esse que nos faz tão inertes frente à violência; que nos amarra e silencia a ponto de não sermos capazes de questionar um policial em nítido ato de violação de direitos, maculando o exercício profissional?

O que se passa conosco para temermos tanto assim?

Será o ignorarmos as leis que regem esse país?

Será a plena desmoralização do instituto cidadania?

Será o fato de quase todos, na fila e no guichê, ao lado estarem rindo do rapaz que apanhava?

Será a descrença total nas instituições?

Até quando o deboche nos silenciará?

O das ruas entre os ditos cidadãos de bem?
Nas instituições públicas e privadas onde vale a lei do mais esperto?
Nas casas da república onde a cidadania é violentada?


À luz do dia, todo dia, na rodoviária, pretos pobres e pobres outros passam por isso e todos silenciam.

Na calada da noite, pretos pobres e pobres outros, também, todos os dias, não só apanham sob o desdém do Estado, como caem em grito emudecido e sangue escorrendo e marcando o território do medo.

Medo.
Ignorância.
Julgamento prévio nos olhares.


E só depois, quando o Estado presente em ato vergonhoso virou as costas, consegui soltar na fila em que estava, o furor inútil de "isso é um absurdo".

Risos e um sussurro do guichê ao lado: "desce o cacete mesmo, puliça".

[28 de fevereiro de 2017, 18h30min. Rodoviária do Plano Piloto. Brasília. Distrito Feder. Brasil]

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