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Sobre resistência

Resistência não é ficar teso, duro, inflexível ante o adversário, inimigo ou situação. 
Dentre os diversos significados à palavra, gosto do que a define como "aquilo que causa embaraço", e ainda, "não ser alterado, danificado ou destruído (por algo ou, ação de algo)" e, por fim, "não seguir e não ser dominado (por impulso, vontade, ideia ou influência)". Esse conjunto de significados me fazem compreender RESISTÊNCIA como GUARDAR PRINCÍPIOS.

Sofrer traição, ser obrigado a carregar o peso de outro, ser esbofeteado (com a mão que limpa fezes ou com as palavras que rasgam a alma ou ainda, com os gestos que silenciam os ânimos de realizar), são perfeitas justificativas para retrucar, devolver a violência sofrida, defender-se na mesma moeda. Mas, se ao invés disso houver  exercício para a RESISTÊNCIA?

Exercício porque é uma missão altamente complexa. Resistir é aprendizado fruto de compreensão de motivos.

O Cristo, certa vez, ao ensinar sobre amar os inimigos, saiu com o seguinte raciocínio:

"Olho por olho, dente por dente, não é o que diz o ditado antigo? Pergunto se isso nos leva a algum lugar. Aqui está o que proponho: não revide, de jeito nenhum. Se alguém bater no seu rosto, ofereça-lhe o outro lado. Se alguém o levar ao tribunal e exigir sua camisa, embrulhe para presente seu melhor casaco e entregue-o a ele. Se alguém aproveitar de você para levar vantagem injustamente, aproveite a ocasião para praticar a vida de servo. Nada de pagar na mesma moeda. Viva generosamente". (A Mensagem, Mateus 5.39)
Então, considerando o significado de RESISTÊNCIA, como aquilo que causa embaraço, como embaraçar o traidor, o usurpador, o violento, o opressor, o inimigo?

Dar a outra face impõe ao outro fazer-se igual e desmistifica sua postura de exigir subalternidade. Carregar por mais um tempo o peso do outro faz dele devedor. Não abrir mão dos princípios que sustentam e que dão sentido à sua vida - a justiça do amor quando se está sendo injustiçado; serenidade quando se está sendo violentado; serviço quando se está sendo explorado e tendo os resultados de esforços apequenados - são embaraçosos gestos que enfraquecem e perturbam o adversário ou inimigo.


De novo, não é fácil praticar isso, por isso um exercício. Não é fácil ser uma pessoa de princípios num mundo de mercados. Não é fácil guardar princípios que tem aparência de tolice num mundo em que o poder é controle, subordinação e dominação por eliminação do discordante.

Aprendi que "poder é escolher permanecer na cruz". Aprendi, também, que RESISTÊNCIA é embaraçar o inimigo com gestos que ele é incapaz de fazer e, por isso o confundem.

RESISTÊNCIA, também, às vezes, será não sair do lugar para não ser alterado ou danificado ou destruído por algo ou ação de algo; outras vezes será dar um único passo, firme, à frente, para não ser dominado por impulso, vontade, ideia ou influência; outras, será simplesmente recuar e não seguir a confusão que consome a alma e destrói o corpo. E, haverá vezes que RESISTÊNCIA poderá ser um profundo e solene silêncio frente à afronta mais atroz ou, falar com a firmeza de quem conhece a autoridade da palavra e sabe dialogar com a palavra de autoridade, o que somente é possível quando se vive sob o escudo da coerência.

A RESISTÊNCIA, talvez, também seja feita com a auto anulação, nunca, porém, a acredito como tática de repetir o injusto, o violento, o explorador, o opressor. Isso é fazer-se igual a ele.

É difícil tudo isso. Mas, se um único homem conseguir, e conseguiu, nós todos podermos.
Um desafio possível para esses dias?

Que princípios escolheremos guardar para base e sustento das nossas ações e reações?

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