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Integração vs Conexão de Almas

Os velhos sábios dos verbetes nos ensinam que integração é a "incorporação de um elemento num conjunto", ou ainda, "tornar algo inteiro" ou, "fazer uma reunião para as pessoas se entrosarem" ou, "a combinação de partes que trabalham isoladamente, formando um conjunto que trabalha como um todo". Verdade é que poderíamos escrever inúmeras frases para a tarefa de tentar explicar o desafio de unificar pessoas, porque no fim, não se trata de pegar um elemento lá e torná-lo parte de um todo ou produzir liga a um todo de elementos isolados. Se não houver uma causa mestra efetiva a energia colocada para o ajuntamento de todos produzirá apenas uma cena ou até um grande e belo espetáculo que terá um fim e depois, atrás das cortinas as ilhas se mostrarão como a verdade que sempre foram.

A pergunta, então, fica: é possível produzir integração?

Eu daria outro nome ao que queremos chamar de integração. Diria, conexão. Quando aplicamos a nossa energia para que elementos diversos, em lugares e pontos diversos, trabalhando por um fim comum poderão alcançar melhor êxito se estiverem conectados.

A conexão física, de alma e de espírito, por um tempo ou de modo permanente, tendo por base um fim macro comum, gera resultados impressionantes.

Outras perguntas me surgem: 
  • Ao que estamos nos conectando neste momento? 
  • Quanto da nossa energia estamos dispendendo para nos conectarmos a outras pessoas que embora julguemos com propósitos semelhantes aos nossos, no fim, nos desvitalizam?
  • Será mesmo que se tratava de conexão que permite troca mútua ou apenas uma relação em que um se aproveita da energia do outro para esvaziá-lo?
  • Que tipo de conexão vale a pena?
  • Como identificarmos as conexões às quais abrimos nossos mais importantes pontos para recebê-las - os nossos sentimentos, emoções, sonhos - como boas ou apenas porta de entrada para contaminadores de primeira grandeza cuja missão é nos fragilizar?
Considero importantes todas as reflexões oriundas destes e outros questionamentos e acrescentaria que, a despeito de todas as finalizações a que cheguemos, integração na forma como nos é posta ou como significo para mim, conexão, somente é possível quando o pano de fundo é efetivamente uma causa comum.

- A causa comum que nos faz baixar todas as desafetações, que nos faz aceitar a nossa diminuta razão ante o tamanho real do todo, que nos molda à servidão fraterna que não humilha, mas torna de igual grandeza todos os que a abraçam. 

- A causa comum que nos aperfeiçoa num rico e continuado processo de auto e mútua correção pela causa comum, pela manutenção da conexão, por sabê-la maior que as coisas, os  casos, as posições, o status.

- A causa comum que exara o o fino significado de fraternidade.

E assim a gente vai compreendendo que por mais que nos esforcemos por criar plataformas integradoras via fios de conexões e transmissão de sinais que a permitam, sem que nos entes envolvidos neste processo haja um intra sensor de causa comum maior que os dispositivos periféricos de cada ser, ficaremos apenas na superficialidade dos atrativos de momentos integrativos, que se dissipam tão longo termine o prólogo da caminhada incomum de cada um. Ficaremos à mercê do interesse convincente do momento, como causa comum maior - construída à base de maquiagem e ao sabor de quem primeiro e melhor se convenceu de porta-bandeira do coletivo - ilegítimo, pois partiu do eu maior e melhor que o nós - e, portanto, frágil, falso e altamente perigoso. Os resultados poderão ser grandes máquinas de saber, inacessíveis, portanto, inoperantes, sem força de transformação na sociedade, sem capacidade de diálogo - quem as poderá entender e operar?

A causa macro comum sucumbirá, diluída em "pequenos exercícios orgásmicos de poder" - como diz uma amiga.

Decepada a esperança, sangrarão sonhos em corpos e almas que movidos por uma dita causa comum ressurgiram das cinzas e agora, traiçoeiramente se perceberão açoitados a quem deram o coração.

Não há desgraça maior que possamos provocar a uma causa comum que a integração superficial - sem conexão de alma e espírito, sem desafetação do eu, sem a percepção e admissão sim de diferentes periféricos, em diferentes formatos e micro objetivos, diferentes graus de potência que, no entanto, só fazem sentido conectados não por suas razões periféricas, mas pelo todo que produzirão, a missão da unicidade e do serviço.

Se queremos integração real, pela conexão de almas - ou seja, sem a descaracterização dos periféricos - é necessário, penso eu, abnegação em favor de uma causa para saber que toda a minha potência deve ser focada para a conexão na  e da causa e não para o meu significado de periférico que sou.

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