Pular para o conteúdo principal

O privilégio comissiona grandes responsabilidades

O tempo é ligeiro.

Hoje, mas que ontem.

A tecnologia digital deixa-o ainda mais ligeiro.

E parece que nunca vamos "dar conta" de acompanhar o girar do mundo.
"Calma alma minha, calminha, você tem muito o que aprender".
Só em 1808 começa a circular no Brasil o primeiro jornal por aqui publicado.
  • A primeira transmissão de rádio? Só em 1922.
Consegue imaginar? A Europa se trucidando, pra variar, na 1ª Guerra Mundial e na Terra Brasilis, guerra o quê? Não tô falando dos militares e das elites que estudavam na Europa. É do povo, que digo.
  • O mundo "quebra" em 1929.
  • Vem a 2ª Guerra Mundial e o mundo se esfarela de 1939 a 1945.
  • No Brasil tá uma quizumba do criolo doido (pra variar) e em 1950 chega a televisão por aqui. Mas a bichinha só se torna a dona das nossas mentes no final dos anos 1970.
  • É bom lembrar que em 1970 nós tínhamos 33,6% de analfabetos no Brasil, entre pessoas de 15 anos ou mais.
Bom ... pra deixar as coisas ainda mais interessantes, tivemos aquelo troço dos 21 anos de chumbo (grosso) e um processo de "êxodo rural" que tomou força a partir da ditadura, quando em pouco tempo as cidades foram entupidas de gente.


Ah...nossa favelização. Algumas fontes dão conta que 90% da nossa população se espreme nas cidades. Um povo largado nas periferias, morando mal (quando mora), comendo mal (quando come), estudando mal (quando estuda) ... porque meu amigo e minha amiga ... qual a taxa de aprendizado (já que gostamos de taxas) você acha que tem, um moleque que acorda cedo (e pra poder dormir mais 5 minutinhos, não toma café - também, seria só pão com café e leite e dê-se por feliz); pega um trânsito do cão, num ônibus fabricado pelo próprio satanás e dirigido por seu mais sagaz cupincha; trabalha o dia todo; sai todo suado do trampo e vai pra escola (ou facul, se o herói chegou até lá - sim, porque a gente acha que 90% da população tem nível superior, né, só porque em cada esquina tem uma "UNI alguma coisa da vida". Pois é, mas APENAS 11% da nossa população chega à universidade). A pessoa sai da Facul 23h; pega o busão; chega em casa 01h do dia seguinte que pra ele ainda o mesmo. Então, na real? Para de ser besta! Esse moleque não vai aprender. É bem possível que resida aí, dentre outras, uma justificativa para a taxa (ela novamente) de 17,8% do chamado analfabetismo funcional no nosso "país tropical, abençoado por Deus".

E? O que eu tô querendo dizer?

Que eu sou uma grande privilegiada. Eu e você que me lê (se é que lerá rs, um jornal desses, ne?)

Aliás, você e eu entramos noutra estatística de gente ainda mais privilegiada e que julga ser a sua condição, a comum de todo brasileiro. Só porque vivemos pendurados no Facebook e afins, achamos que todo o Brasil tem acesso à internet. Segura essa:
  • 51,4% da população brasileira tem acesso à internet, mas somos apenas o 74º no ranking mundial da conectividade. E ainda assim, chegamos a mais da metade da população impulsionados pelo mobile. Se formos falar de acesso nas residências esse número cai para 42% (na Coreia do Sul é 98%).
Então, e eu você somos absurdamente privilegiados: temos uma casa (a minha, um cafofo de aluguel); temos educação (requenguela, mas temos); temos nível superior e alguns dos meus amigos (um dia chegarei lá. Amém) estão na altamente restrita lista de 0,05% de brasileiros doutores e mestres (e você aí porque tirou a OAB, achando que é Doutor, hahaha sabe de nada, inocente).


Pois é..."a quem muito é dado, muito será cobrado", já dizia o Cristo nas suas andanças por aqui. Muitas outras estatísticas poderiam ser postas aqui para denunciar a minha e a sua responsabilidade, em maior grau, com o Brasil - não que sejamos melhores que ninguém. Mas, meu amigo e minha amiga, se tamanho privilégio não nos tirar a bunda da cadeira e não nos impulsionar a nos colocarmos no front pelo nosso país, na luta por mais igualdade, na luta para que o acesso que temos, seja também de todo o brasileiro ... nos quatro cantos desse país....bom! Xá pra lá....

O tempo é ligeiro.
Hoje, mas que ontem.
A tecnologia digital deixa-o ainda mais ligeiro.
E parece que nunca vamos "dar conta" de acompanhar o girar do mundo.

O mundo gira e gira ligeiro e quanto mais ligeiro gira e nós parados permanecemos, tontos também ficamos e por fim, caímos...sucumbimos.

Vamos deixar o girar do mundo fazer sucumbir o Brasil ou vamos assumir a responsabilidade que o nosso privilégio nos comissiona?

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Democracia e representatividade: por que a anistia aos partidos políticos é um retrocesso

Tramita a passos largos na Câmara dos Deputados, e só não foi provado hoje (2/maio) porque teve pedido de vistas, a PEC que prevê anistia aos partidos políticos por propaganda abusiva e irregularidades na distribuição do fundo eleitoral para mulheres e negros. E na ânsia pelo perdão do não cumprimento da lei, abraçam-se direita e esquerda, conservadores e progressistas. No Brasil, ainda que mulheres sejam mais que 52% da população, a sub-representação feminina na política institucional é a regra. São apenas 77 deputadas entre os 513 parlamentares (cerca de 15%). E no Senado, as mulheres ocupam apenas 13 das 81 cadeiras, correspondendo a 16% de representação. Levantamentos realizados pela Gênero e Número dão conta que apenas 12,6% das cadeiras nos executivos estaduais são ocupadas por mulheres. E nas assembleias legislativas e distrital esse percentual é de 16,4%. Quando avançamos para o recorte de raça, embora tenhamos percentual de eleitos um pouco mais elevado no nível federal, a ime...

Os olhos são as janelas do corpo (ou da alma)

Diz a sabedoria: "Os olhos são as janelas do corpo. Se vocês abrirem bem os olhos, com admiração e fé, seu corpo se encherá de luz. Se viverem com olhos cheios de cobiça e desconfiança, seu corpo será um celeiro cheio de grãos mofados. Se fecharem as cortinas dessas janelas, sua vida será uma escuridão." Eu adaptaria para os olhos são as janelas da alma. Por mais óbvio seja, parece que recorrentemente é necessário dizer o quanto nós julgamos as pessoas por aquilo que somos capazes de fazer. E quase sempre isso dista, anos luz, do que elas realmente estão fazendo ou considerando fazer. Então, em um processo de rupturas, por exemplo, se nós somos do tipo agressivo e violento que atua para enxotar as pessoas dos espaços e fazer os mais ardilosos arranjos de modo nos garantirmos em estruturas de micro-poder, é assim que lemos as outras pessoas e começamos a desenvolver pensamentos e medidas conspiratórias em lugares que somente nós encontramos os males imaginados. E e...

Reforma?

Daqui 11 dias celebraremos 505 anos da reforma protestante.  Naquele 31 de outubro de 1517 dava-se início ao movimento reformista, que dentre seus legados está a separação de Estado e Igreja. É legado da reforma também o ensino sobre o sacerdócio de todos os santos, na busca por resgatar alguns princípios basilares da fé cristã, que se tinham perdido na promíscua relação do poder religioso com o poder político. E, co mo basicamente todo movimento humano de ruptura, a reforma tem muitas motivações e violência de natureza variada. No fim, sim, a reforma tem sido muito positiva social, política, economicamente e nos conferiu uma necessária liberdade de culto.  Mas, nós cristãos protestantes/evangélicos, teremos o que celebrar dia 31?  Restará em nossas memórias algum registro dos legados da reforma? Quando a igreja coloca de lado seu papel de comunidade de fé, que acolhe e cura pessoas e passa a disputar o poder temporal, misturar-se à autoridade institucional da política, e...