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A hora de revirar o lixo

Nem ao mais asséptico dos seres humanos (já que assepsia total nos é impossível possuir) é dado o privilégio de não ter que mais cedo ou mais tarde colocar a mão na lata do lixo para revirá-lo. E se precisássemos de pelo menos um motivo para aprovar essa necessidade, daria a razão de produzirmos lixo desde antes de nascermos e portanto, nem que seja apenas para nos certificarmos de que o descarte de algo foi realmente feito, não escaparemos dessa cina humana: mexer no lixo.

O complicado disso tudo é que mexer no nosso lixo parece ser ainda mais complexo que no de outra pessoa. Mas, uma coisa é certa, na medida em que tomamos consciência da necessidade de revirarmos o nosso lixo, quanto mais adiamos a tarefa, mas complicada e perigosa ela poderá se tornar.

O odor do apodrecimento de histórias e relações nos fazem embrulhar o estômago.

Todos aqueles bichinhos gerados a partir do lixo, nos enojam e dão medo. E sim, de início, talvez, saiamos ilesos da tarefa. Mas, talvez saiamos com um corte em objeto não identificado ou do qual não nos lembremos mais. Talvez um mal cheiro que nos requeira um pouco mais de água e sabão no processo de limpeza das mãos, quem sabe do corpo todo. Talvez um tempo maior de reclusão. Talvez expor-se para receber colaboração.

A despeito de tudo isso e outros tantos "talvez", é preciso que encaremos as nossas latas de lixo, abertas ou lacradas, pois não é possível o seu descarte responsável sem as revirarmos. É somente através dessa árdua, e por vezes dolorida tarefa, que poderemos evitar jogar fora o que pode ser reciclado e reaproveitado, ganhando novo e útil significado. É através dela também, que podemos ter a possibilidade de encontrar em nós alguma matéria orgânica que eventualmente ali exista e usá-la como geradora de outros processos de vida e, no mínimo, se nada for passível de aproveitamento, aprenderemos a lidar adequadamente com os demais lixos que produziremos até a nossa partida dessa existência para que o acúmulo de lixo não nos cause doenças e não nos tire a vida, orgânica, que nos faz humanos. Pois, se assim não for, é quase certo que nos tornaremos um lixo de gente - quando muito, descartável - imprestável, detestável, causadora de males.

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