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Para além do título de mais antiga

A mais antiga cidade do Distrito Federal. Ela tem o impacto da convivência novidadeira de pequenos estabelecimentos comerciais com presença ativa na internet, via redes sociais, junto aos seus marcos tombados de história. Tem também a belezura das riquezas naturais que a abraçam tão gentilmente, e sobretudo, o encantamento de sua efervescência cultural.

Planaltina, catalisadora de sonhos, resistência sombreada em bravas lutas e em cujas veias pulsa, aceleradamente, um contagioso e brilhante espírito de pertencimento, uma mescla de tantos valores que podem fazê-la para além do título de mais antiga, ser a cidade ponto de contágio de um sentimento - por lá tão vivo e tão necessário a todas as demais cidades, o apropriar-se do território, dos frutos que de lá emanam, das histórias e tradições, da luta para criação de uma cultura local forte, de identidade.

Planaltina não seria meu destino na semana passada, quis, porém o destino que para lá me dirigisse e, apesar de já conhecer um pouco da cidade em razão de algumas andanças anteriores, a visita foi ímpar. De repente me vi tomada pelo sentimento que mais me chamou a atenção por lá: a vibração de declarar 'esta é a minha cidade'.

Planaltina, é então, um lugar perfeito? Obviamente que não, muito ao contrário. A cidade carrega marcas da má gestão pública e do descaso, que podem facilmente ser identificadas nos altos índices de violência, especialmente entre os jovens, nas crescentes taxas de desemprego, nos crônicos problemas de mobilidade, na desvalorização dos potenciais econômicos locais e no esquecimento dos seus marcos históricos, só para citar algumas dessas negativas circunstâncias.

A questão é que mesmo observando e considerando o peso de todas estas coisas, o que de lá - ou lá, de fato me marcou, foi a gana da dona Graça, artesã e militante da cidade; o júbilo viçoso de dona Geralda, no alto dos seus mais de 70 anos, poetisa e militante da cidade; a paixão da militante pela preservação da cultura local e a vibrante esperança e mescla de luta em tudo isso, do jovem Rodrigo, pela cidade que é sua e de todo o Distrito Federal, como ele faz questão de registrar.

Agarrar-se a uma terra e fazê-la sua, pode transformar a vida de uma pessoa, dando a ela uma força sobre-humana para acreditar, propor novos caminhos e soluções, dispor-se a semear pensando nas gerações futuras, na coletividade e na construção colaborativa de cidade, arregimentando as mais diversas pessoas para o ideal de fazer de todos, o sonho que começou com um.

Que a semente, prestes a se tornar broto em Planaltina, ache em todo o Distrito Federal, solo fértil para fecundar pertencimento.

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