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Dos Fragmentos no Caminho Emaús


"Te ver e não te querer
É improvável, é impossível?"

Assim (mas sem a interrogação) começa uma das lindas canções gravadas pela banda mineira Skank. E a partir dessa letra meu primeiro sábado de 2014 foi embalado, numa, ora frenética, ora calma dança dentro de mim, para que logo em seguida, uma história muito conhecida - o encontro de Jesus com dois discípulos no caminho de Emaús, me fizesse chorar de alegria pela oportunidade e graça da Palavra Revelada.

É engraçado perceber como a história humana se repete, como não há nada de novo na face da terra e isso, não se trata de uma visão de pessimista. Não. Eis aí algo que não me acomete. Muito ao contrário. Mas, o que vemos acontecendo no caminho de Emaús, é exatamente o mesmo que se dá conosco, dia após dia.

O que temos ali?
- Dois discípulos de Jesus indo em direção a Emaús;
- Uma caminhada envolta nas cenas de uma tragédia (anunciada e cumprida).

E aqui, algumas coisas começam a me chamar a atenção. O verso 15 diz que "Enquanto conversavam e discutiam, o próprio Jesus chegou perto e começou a caminhar com eles, mas (verso 16), alguma coisa não deixou que eles o reconhecessem".

O Cristo, então, sob a nuvem do desconhecimento começa a levantar algumas indagações, que obviamente, não são bem recebidas, afinal, como poderia alguém não saber dos últimos acontecimentos que varreram Jerusalém, provocando expectativas, distúrbios, desavenças e muito choro? 

Uma lista de pequenas coisas pode ser destacada aqui:
1. Jeito triste dos dois discípulos;
2. A definição de Jesus como um grande profeta, apenas;
3. Esperança frustrada;
4. Promessa não compreendida.

E eles discorrem ao novo companheiro de viagem, tudo o que havia acontecido, para em seguida, ser a vez dele, o viajante sem rosto, falar. E ele fala com ênfase e autoridade, a começar por dizer (verso 25) "Como vocês demoram para entender e a crer em tudo o que os profetas disseram!".


O dia finda, a estrada acaba, o convite vem (verso 29): "Fique conosco porque já é tarde, e a noite vem chegando".

À mesa, o viajante de boa conversa, agora hóspede ainda sem rosto, pega o pão, dá graças a Deus e em seguida o entrega aos discípulos. O inusitado acontece - o rosto se revela, a companhia da longa estrada, o homem de boas palavras, o hóspede inesperado, era o Cristo não percebido. Os olhos se abrem e o Cristo desaparece.

"Não parecia que o nosso coração queimava dentro do peito quando ele nos falava na estrada e explicava as Escrituras Sagradas?". Essa era a indagação agora, feita sob o efeito do espanto, da surpresa, da alegria, do êxtase!

Que bom que eles tiveram a oportunidade de olhar para o Senhor e outra vez o reconhecer. E que lição nos é deixada!

Aqueles eram homens que conheciam a Lei e os Profetas, as Escrituras Sagradas eram para eles, uma realidade efetiva (mas agora, distante); eles não eram apenas expectadores do ministério do Messias, mas seus discípulos. Apesar disso, a tristeza lhes embotava, a tal ponto, os sentimentos, que no longuíssimo prazo de três dias, eles não tinham mais convicção de ser aquele homem de Nazaré, o Cristo, Messias prometido, como eles declaravam até aquele fatídico julgamento perante Pilatos. Também, em apenas três dias, e por consequência da fragmentação de suas convicções, estes mesmos homens esqueceram o significado e a promessa da ressurreição, tanto que, em razão disso, perderam-se no propósito do que viera Cristo fazer, motivo, inclusive que se tornaria a missão dada a eles para cumprir.

"Aí os olhos deles foram abertos, e eles reconheceram Jesus. Mas ele desapareceu." (verso 31).

Quando leio esse trecho, vejo um milagre chamado comunhão, manifestando-se . 

No partir e repartir do pão, dá-se a manifestação do Cristo, e os meus pensamentos explodem num questionamento da nossa condição de vida individualista, egoísta, materialista, destoante do Evangelho, mas tão cheia de razão, tal qual aqueles dois no caminho de Emaús. Conhecemos a literatura bíblica e até nos orgulhamos disso, mas alguma coisa nos nossos olhos nos impede de reconhecer Cristo na Sua Palavra; congregamos aos domingos (e muitas vezes a semana inteira), como se as nossas idas e vindas aos locais de reuniões da Igreja fossem uma longa romaria (e assim se tornam, muitas vezes), mas Ele permanece fora da nossa vida, não se faz vivo em nós, a ponto de olharmos a pessoa ao nosso lado e a termos apenas como um rosto desconhecido, quando deveria haver um mútuo reconhecimento do Cristo nessa companhia da nossa trajetória, nessa estrada a que damos o nome de vida cristã. (É?). E ai, obviamente, o resultado não poderia ser outro, senão, nos abatermos na tristeza; perdermos a convicção acerca do Cristo e já não sabermos mais quem Ele é; perdermos a esperança da nossa vocação; perdermos a expectativa de que não há trabalho vão no Senhor; perdermos a certeza de Ele faz todas as coisas novas e dá nova vida ao que a morte solapou. 

A reflexão que me salta desse texto é talvez, a mais falada nos últimos dias, exercício tão óbvio e tão difícil de se vivenciar: transformar os atritos relacionais em pontes e conexões para uma comunhão tão genuína que Cristo se torne visto em nós, por nós, diante de nós, porque dizemos que o queremos, que é impossível tÊ-lo diante de nós e não o deserjarmos todos os dias, mas ao nos isolarmos e erguermos barreiras relacionais, por questões justificáveis (segundo os nossos sentimentos dizem) - como eram aquelas dos homens no caminho de Emaús, o que fazemos é provar que no fundo, é perfeitamente possível vivermos sem Ele, que a ausência dEle não significa nada para nós, pois nas nossas razões somos suficientes a nós mesmos.

Que a solidão do caminho de Emaús seja um processo de transformação da nossa mente, ao se aproximar de nós uma pessoa qualquer (que pode ser a manifestação dele) para que o vendo, de imediato, o reconheçamos e tenhamos a nossa vida nEle e Ele em nós, através da genuína comunhão para que aquilo que as nossas razões fragmentam, o Espírito restaure e Ele se alegre em nós e que isso comece já.

Aprendamos, portanto, que Cristo não se manifesta em fragmentos (como nos prova os homens no caminho de Emaús). Cristo se manifesta em um Corpo, cuja alimento é o aprendizado diário do significado da vida em comunhão apesar dos acontecimentos e sem o qual voltamos aos fragmentos.

Que ver o Cristo e não o desejarmos, seja improvável, impossível para nós.

Que a simples possibilidade de esquecê-Lo,  seja profundamente insuportável e nos provoque incríveis dores e a consciência de que o remédio está ao nosso alcance e nos é dado pela reconciliação com o nosso irmão. 

Que não mais nos demoremos a entender e a crer em tudo o que nos foi dito pelo Cristo. Amém!

Até breve, amigos! ;)

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